Sábado, 01 de novembro de 2008Bandas de rock instrumental ganham força no Brasil
Elis Martini
Especial para o Terra
Embora ainda pouco difundido entre o grande público, o rock instrumental é uma vertente que não pára de crescer e de conquistar novos adeptos a cada dia. Grupos como o paulista Surfadélica, o cearense Fossil e o pernambucano A Banda de Joseph Tourton vêm chamando a atenção e voltando olhares para esse gênero que não precisa de palavras para se expressar.
Carlos Nishimiya, guitarrista do trio de surf music instrumental Surfadélica (www.myspace.com/surfadelica), afirma que montou a banda pois já havia trabalhado com diversas formas de rock, exceto com surf music. "Além disso, várias composições que eu tinha não pareciam ter necessidade de vozes", afirma.
O Surfadélica lançou recentemente seu disco de estréia, Surfing on the Desertshore. "O resultado, eu penso, ficou muito bom. Nosso CD recebeu críticas extremamente positivas, especialmente do exterior", avalia Nishimiya. "O objetivo era expandir a idéia que as pessoas tinham de uma banda de surf music como algo com formato estabelecido, pouco criativo e sempre muito semelhante. Para isso incorporei influências de outras vertentes do rock, como o shoegaze, o rock progressivo, o grunge e o britpop", explica o músico.
Apesar da boa receptividade que sua banda vem recebendo, Nishimiya concorda com a idéia de que o rock instrumental possui uma aceitação mais difícil perante o grande público. "Como nunca tivemos pretensão de fazer sucesso popular, estamos satisfeitos com a resposta do nicho de público que pretendíamos atingir. Penso que fazemos uma música honesta, que reflete a nossa personalidade. Então, já estou feliz", conclui.
Gabriel Izidoro, guitarrista da Banda de Joseph Tourton (www.myspace.com/josephtourton), na ativa desde 2007, concorda que o sucesso é mais difícil para uma banda instrumental. "É mais difícil uma banda instrumental vingar, porque não são muitas as que surgem, boa parte não consegue formar um público e os lugares que abrem espaço pra esse tipo de música são raros", explica.
Izidoro afirma que sua banda adotou o rock instrumental de uma maneira não proposital. "A Banda de Joseph Tourton foi, por muito tempo, uma banda de improviso. Era basicamente se juntar pra fazer som, ninguém estava preocupado em fazer letras ou em arrumar um vocalista. Com o tempo, criamos uma afinidade maior pela música instrumental e começamos a compor pra tocar fora do estúdio, mas sem deixar o improviso de lado".
Mesmo achando que o rock instrumental é ainda visto por muitas pessoas como uma música difícil de se ouvir, Izidoro afirma que a resposta do público nos shows da Banda de Joseph Tourton vem sendo positiva. "Durante o show uma parte do público não está nem aí para a música e fica só dançando enquanto que a outra fica parada prestando atenção no show. Mas quando acabam as músicas todo mundo aplaude igual, é uma felicidade. E apesar da banda existir há pouco tempo, muita gente já veio nos parabenizar, pedir o site, CD, adesivo", comenta.
Para Vitor Colares, guitarrista da banda Fossil (www.myspace.com/fossilsoundtrack), que recentemente lançou seu primeiro disco, Insônia - La Movimentacion Musicale Intermezzo Minimal, a música instrumental é mais subjetiva do que a com vocais. "É algo complicado de explicar. O diferencial é que quem faz música instrumental acaba por deixar o ouvinte livre pra visualizar algo mais peculiar e subjetivo", explica. "É tudo uma questão de mensagem. A música instrumental é mais sensorial do que sentimental, eu acho".
Eric Barbosa, guitarrista e colega de banda de Colares, é da mesma opinião. "O grande lance da música instrumental é permitir que o ouvinte absorva e contemple de certa forma as diversas sensações que a música te passa na hora, permitindo que quem escute crie sua própria interpretação daquilo que se ouve e propõe", explica Barbosa.
Sobre a crescente valorização do rock instrumental, Colares acredita que a aproximação do gênero com a música eletrônica possa ter servido de incentivo. "Com o flerte cada vez maior do rock com a música eletrônica, desde a mais agitada possível até coisas muito lounge, a ausência de vocais nesse tipo de música se mostrou diferente daquela coisa matemática e, na maioria das vezes, muito certinha da música clássica, que com certeza fazia o rock torcer o nariz", afirma o guitarrista.
"Vale ressaltar que isso é muito gradual. David Bowie, quando disse que não ia fazer mais rock, em 1976, já começou a diminuir o tamanho de suas letras de forma notável, tornando clara a intenção de arranjos instrumentais. Hoje temos tanta coisa flertando com tanta coisa, que fica difícil saber o que é rock e o que não é", completa.
Independente das influências ou conexões, o fato é que cada vez mais jovens vêm se interessando pela sonoridade do rock instrumental, que ficou famoso durante os anos 60 com grupos como The Ventures e The Shadows e que promete ainda cativar muitos adeptos.
Postado por lourdes mk